terça-feira, 1 de outubro de 2013

"Dov'è lo zucchero?"

Olá a todos!
Hoje acho que foi um dos meus dias preferidos desde que cheguei a Itália. Depois da depressão de ontem e de conversas com várias pessoas sobre o mau dia de ontem, arranjei coragem e mudei o rumo à coisa. Quero muito agradecer às pessoas que me mandaram mensagens a dar conselhos, ou a partilhar as suas experiências e como ultrapassaram, ou simplesmente a desejar boa sorte. Quero em especial agradecer ao Francisco Soares que me disse que ficando em casa isto não ia mudar de certeza, à Madalena que me falou dos maus momentos que passou e ao McCord que me disse uma coisa que me ficou muito na cabeça "quanto mais pensares assim mais reais se tornam as coisas...", depois de me ter dito que tinha saudades minhas e que odiava saber que eu estava a passar por isto. Para além disso recordou-me de um momento do campo de Caturras em que a Francisca estava com soluços e parecia um sapo, momento que prometemos recordar sempre que nos sentíssemos em baixo, porque nos mete sempre felizes.

Assim, quando acordei, decidi que hoje era o dia em que ia começar a falar italiano, independentemente dos erros que desse. E assim foi, logo de manhã mandei umas frases em italiano para o ar.
Na aula de educação física uma professora que nos andou a perguntar os nomes perguntou-me se eu era uma aluna nova, porque nunca me tinha visto. Até que lhe expliquei que era de Portugal e que estava aqui durante 3 meses por causa da Intercultura, e ela ficou toda contente. Até disse que queria falar comigo mais tarde sobre Portugal, e tudo em italiano.
Na aula fizemos primeiro um teste motor mas desta vez para os braços. Consistia em atirar uma bola pesada e ver até onde ia. Voltei a ter a pior nota das raparigas, desta vez um 7+. Acho que atirei 5,28m, o que eu achava ser bom até ver o resultado das outras.
Depois de todos os alunos estarem avaliados fomos jogar volley, e fiquei muito feliz porque a Eli (outra colega minha com quem nunca tinha falado muito mas vejo sempre nas festas religiosas e missas) disse que queria ficar comigo. Depois fizemos duas equipas para jogar volley e voltei a não ser a última a ser escolhida, o que sabe bem quando estamos numa turma completamente diferente. Depois dos jogos todos ganhos (acho eu), acabou a aula. E depois de Educação Física veio Italiano, e não faço a mínima ideia do que estivemos a falar a aula toda.
Depois de italiano veio o intervalo de 15 min e o Matteo disse-me para o passar com eles, o que foi muito simpático. Depois dos 15 minutos de descanso tivemos 2 horas com o mesmo professor, uma de história e outra de filosofia. A verdade é que não ouvi nem uma nem a outra, mas passei a aula a falar por bilhetinhos (em italiano!!) com a Ines. Disse-lhe também que à tarde às vezes sinto-me sozinha porque não tenho nada para fazer, e ela disse que quando combinarem manda-me mensagem. Espero que assim mude, Pedro Machado!

Depois da aula fui para casa com a Anna para almoçar, e tínhamos combinado fazer biscoitos de manteiga portugueses depois do almoço. Mas quando cheguei ao quarto tinha lá uma encomenda de Portugal. Uma caixinha cheia de biscoitos feitos pela Manuela, deliciosos. E com os biscoitos vinha um postal. Escrito pela minha mãe e pelo Hugo. É bom ler as coisas que a minha mãe portuguesa me escreve, agora do meu irmão já não posso dizer a mesma coisa: "Olá Eva, dá um beijo à Anna. Xau".
A latinha onde estavam os biscoitos também tem uma história engraçada que passo a explicar. Há quatro anos eu e a minha família portuguesa acolhemos uma alemã durante um ano, a Annika. Durante a estadia dela, a tia enviou-lhe esta caixinha cheia de biscoitos. Entretanto a Annika voltou e a caixa ficou connosco. Agora que estou eu a viver fora a minha mãe enviou-me a caixinha cheia de biscoitos, e com a intenção de ficar aqui em Itália. Quando a Anna foi viver para outro país a ideia é a mãe mandar-lhe também esta caixinha, outra vez cheia de biscoitos, e assim sucessivamente. Mas por enquanto a caixa fica por aqui. E dá um ar tão confortável à cozinha. Faz-me sentir em casa.

Como a minha mãe está doente, quando chegámos a casa o almoço não estava feito, então fizemos nós pasta com um molho de tomate e carne picada. Depois de almoço, enquanto a Anna fez a sesta, fiquei aqui um bocadinho no facebook. E, quando ela decidiu ir estudar, eu decidi ir dar uma volta sozinha por Castelnovo ne Monti, para conhecer melhor. Descobri sítios ainda mais bonitos do que os que já tinha visto, e mais ruas tipicamente italianas. Voltei a apaixonar-me pela vila. Soube tão bem andar aqui perdida que nem uma chinesa com uma máquina fotográfica na mão.
Depois de passear um bocado fui ao supermercado para comprar os ingredientes para os biscoitos de manteiga que adiámos para quinta e umas caloriazinhas para mim. Mas, já que não me perdi em Castelnovo, tive de me perder no supermercado. Não que fosse muito grande, mas a distribuição dos produtos era super estranha. E, vendo que não ia encontrar o açúcar por mim própria, decidi ir perguntar a uma senhora idosa que andava por lá a fazer as compras. Também não fui muito inteligente, porque fui logo escolher uma pessoa mais velha e com maior probabilidade de ser surda ou meia surda. E não é que me calhou o Jackpot. Ou a mulher era meia surda ou o meu italiano é mesmo muito mau, porque enquanto eu lhe estava a perguntar "Dov'è lo zucchero?" (Onde está o açúcar?), ela respondia-me que se estava à procura de um homem chamado Luca ela não me podia ajudar, porque não sabia quem era.
Entretanto decidi ir perguntar a outras senhoras, que entenderam logo à primeira e me encaminharam para o corredor correcto. Tendo tudo o que precisava para os biscoitos, decidi também comprar coisas que contribuam para a minha engorda, e a minha lista acabou por ser: uma coca-cola, um pacote de bolachas com chocolate para levar para a escola, um pacote de mikado (bolachas/pão em palito molhado em chocolate) e, para equilibrar um bocado, uma barra de Lindt. Sim, porque aqui vendem barras de Lindt, que são mil vezes mais baratas do que os Lindt normais e têm exatamente o mesmo sabor.

Compras pagas, saí do supermercado e fui-me sentar junto a uma fonte onde estive a lanchar. Quando voltei a casa voltei um bocado para o computador, mas entretanto a Anna perguntou-me se não queria meter o meu Android para arranjar. Fomos ao Magnani para ela beber um café e depois fomos para a loja de telemóveis. Mandei o telemóvel para lá mas, como não tenho a garantia aqui, o arranjo vai ser pago. Se o arranjo for menos de 40€ eles fazem e eu tenho de pagar, se for mais, eles ligam daqui a 4 dias a perguntar se quero seguir com o arranjo ou não.
Na volta para casa a Anna disse-me que estava a falar italiano muito bem, e perguntou-me desde quando é que eu sabia falar. Também não sei quando aprendi, mas foi hoje que arranjei coragem para deitar todas as frases que andava a construir cá para fora.
Antes de irmos para casa fizemos um curto desvio e a Anna foi-me mostrar um sítio lindo, no cimo de um monte, que é uma homenagem às pessoas que morreram na segunda guerra mundial. Contou-me também uma história incrível da nossa avó. Quando tinha 17 anos, foi apanhada pelos alemães a levar leite para os refugiados. No entanto, disse que não era verdade e que ia levar para uma família italiana, enquanto os alemães lhe apontavam uma arma, prontos a matá-la. Levaram-na com eles e foram fazer uma visita à tal família que supostamente ia receber o leite. Mas a família, mesmo não sabendo que tinha sido uma desculpa inventada pela avó para não ser morta, quando questionada sobre a legitimidade do que a minha avó disse, confirmou. Os alemães deixaram-nos e a família salvou assim a vida à minha avó. Agradeço a essa família. Caso contrário toda a história teria mudado e a família Goldoni onde vivo agora não existiria.

Quando cheguei a casa falei com uma colega no facebook que me disse que tínhamos interrogação oral de italiano na segunda e teste de inglês na quarta, ups. Não sabia de nenhuma das coisas, mas parece-me que não tenho de responder à interrogação oral sobre a divina comédia e a literatura italiana.
Antes de jantar veio cá a casa uma tia, a irmã da minha mãe. Ainda não a tinha conhecido, e foi bom conhecer mais um membro desta enorme família.
À hora de jantar tivemos um convidado que veio substituir a minha mãe que ficou no sofá porque estava com febre, o Padre. E como tínhamos um Padre à mesa, deram graças antes de comer. Acho que foi das primeiras vezes em que não me senti mal enquanto toda a gente rezava menos eu. O Padre foi muito simpático para mim e mostrou-se muito interessado em saber o que eu andava a fazer por cá e o que estava a achar. Durante o jantar conseguimos estabelecer uma conversa e foi toda em italiano.
Hoje o jantar foi uma sopa de legumes e massa do almoço mas no formo e com molho de bechamel.

Depois do jantar veio outra visita, o nosso primo médico. Veio para visitar a minha mãe, mas também aproveitou para me ver. Infelizmente ambos achamos que isto já não é pitiriase, mas sim psoriase. Mais um grande dor de cabeça. No entanto ele disse para esperar uma semana e ver, porque nessa altura o que for pitiriase já deve ter desaparecido.

Depois de termos ajudado a arrumar tudo na cozinha eu e a Anna decidimos ir dar uma volta por perto de casa. Foi muito divertido e rimo-nos imenso, foi dos melhores momentos que passei com ela. Combinámos também que a partir de amanhã, sempre que eu falar inglês para ela, ela tem o direito de me dar uma chapada. Como é óbvio ela ficou muito entusiasmada com a ideia, eu também ficaria.

Amanhã vou direta da escola para Reggio Emilia, onde tenho aula de italiano. É a primeira vez que apanho o autocarro sozinha, desejem-me sorte. Já tivemos a preparar a minha bucha para comer na viagem. Não faltam os biscoitinhos portugueses, como é óbvio.

Beijinhos grandes das montanhas italianas, espero que por aí esteja tudo bem!








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